A Placa perdida do tempo dos Descobrimentos, visita a não perder

A placa que encontrámos na Capela de São Jerónimo no Restelo, em Lisboa.
Diz a placa que “A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de Março.” A frase é escrita por um dos heróis ligados à aventura dos descobrimentos.
Que quer isto dizer?

Tome nota de uma placa alusiva aos “Descobrimentos” que descobrimos na Capela de São Jerónimo no Restelo, em Lisboa:

“A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi foi segunda-feira, 9 de Março”.

Sua Majestade o Rei estava distraído? Então não sabia que a partida das naus tinha sido naquela segunda feira? E de que ano?

Placa; Capela Sao Jeronimo no Restelo
Placa; Capela Sao Jeronimo no Restelo

Fomos indagar o significado desta mensagem.

É uma frase curta escrita por Pêro Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral quando do descobrimento da Terra Nova.

A frase está na carta de Pêro Vaz para o Rei, dois meses após o início da viagem da armada de Cabral. Carta feita “Deste Porto Seguro, de vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.”

A Carta conservou-se inédita por mais de dois séculos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Foi descoberta, em 1773 por José de Seabra da Silva e publicada pelo historiador Manuel Aires de Casal na sua Corografia Brasílica (1817).

Em 2005, este documento foi inscrito no Programa Memória do Mundo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Carta ao rei D. Manuel, comunicando o descobrimento da Ilha de Vera Cruz

Original carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei D Manuel I, Torre do Tombo, Lisboa
Original carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei D Manuel I, Torre do Tombo, Lisboa

Alguns detalhes da carta de Pêro Vaz de Caminha, do descobrimento da terra nova que fez Pêro Álvares:

“Senhor:

Posto que o capitão desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que, para o bem contar e falar, o saiba fazer pior que todos.

(…)

Portanto, Senhor, do que hei-de falar, começo e digo:

A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de Março.

Sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e as 9 horas, nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã Canária.

(…)

E domingo, 22 do dito mês, às 10 horas pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas do Cabo Verde, ou melhor, da ilha de São Nicolau, segundo dito de Pêro Escolar, piloto.

Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse.

(…)

(22 de Abril)

E quarta-feira seguinte, pola manhã, topámos aves, a que chamam fura-buchos.

Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra!

Primeiramente de um grande monte, mui alto e redondo, e de outras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã, com grandes arvoredos. Ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra, a Terra da Vera Cruz.

(…)

(23 de Abril)

E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra (…) lançámos âncoras em frente à boca do um rio.

E chegaríamos a esta ancoragem às 10h, pouco mais ou menos.

(…)

E o capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho, para ver aquele rio.

E, tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia 18 ou 20 homens.

(…)

Ali não pôde deles haver fala nem entendimento (…) deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho, que levava na cabeça, e um sombreiro preto.

Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio.

(…)

E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver mais fala, por causa do mar.

(…)

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, de vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.”
Pêro Vaz de Caminha.

Pêro Vaz de Caminha (Porto, 1450 – Calecute, Índia, 15/12/1500)
Escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral.

A história dos descobrimentos portugueses e em particular a descoberta do Brasil numa carta que pode ler em mais detalhe.

A versão PDF da carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I, publicada em 1998 pela Expo98 está disponível para ser descarregada:

Clique aqui

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