Descobrir Portugal – Biblioteca do Palácio de Mafra

Dos locais a visitar, escolhemos a visita noturna à Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra e conhecer a sua história.
Conhecer os nossos “amigos” morcegos que por aqui vivem e ajudam a cuidar de tão grandioso espólio.
Um belo passeio pelo património, imperdível em Portugal.

Para enriquecer a nossa agenda de locais a visitar e para descobrir Portugal, depois da nossa visita ao Palácio Conde de Óbidos vamos passear por Mafra.

Numa noite estrelada de Verão fomos visitar a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra. Um dos locais a visitar, tal como o Palácio da Ajuda. Imperdível em Portugal

Parece estranho?

A ideia desta visita noturna, para além de querer conhecer tão bela Biblioteca e a sua história, pretendia também proporcionar um encontro com os nossos “amigos” morcegos que, ao longo de todo este tempo, têm zelado pela saúde dos livros e ajudado a cuidar de tão grandioso espólio.

Entramos no Palácio e, passada a primeira sala, eis que

Salão Grande do Rei
Salão Grande do Rei

no corredor imediatamente a seguir somos surpreendidos por diligentes senhoras que faziam a limpeza do Palácio.

As nossas aias surpreendidas
As diligentes senhoras surpreendidas

Elas entreolharam-se e, surpreendidas pela visita tardia, questionaram se não seríamos os convidados da Corte que eram esperados por El Rei na manhã do dia seguinte.

Claro que éramos!

Tínhamos chegado mais cedo porque o caminho até lá estava muito bem cuidado e permitira encurtar o tempo da viagem.

Nesta aventura para descobrir Portugal este era um ponto importante da descoberta.

Muito prestimosas, as nossas primeiras anfitriãs começaram a tratar de nos acomodar durante essa noite. O Rei e a Rainha ainda não tinham chegado e, por isso, pudemos dar uma volta e conhecer o Palácio.

Encontrámos o retrato do Rei…

Imperdível em Portugal. Retrato do Rei D. João VI
O Rei D. João VI

…e o da Rainha.

A Rainha D. Carlota Joaquina
A Rainha D. Carlota Joaquina

E eis que chega o Duque afável que nos vem dar as Boas-Vindas e,

O Duque
O Duque

por ele guiados, passámos pela sala de música onde, muitas vezes, os Reis desfrutavam com os seus convidados de bons momentos musicais.

A sala de Musica do Palácio Mafra
A sala de Música do Palácio de Mafra

Fomos então conduzidos pelo Duque à Biblioteca do Palácio.

Locais a visitar. Interior da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra cortesia da Biblioteca do PLM
O local a visitar, interior da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra cortesia da Biblioteca do PNM

Nela, há cerca de 36.000 volumes, alguns dos quais contendo vários livros, não se sabendo ao certo a quantidade exacta. A compra de livros para esta Biblioteca foi iniciada pelo rei D. João V.

A importância deste acervo foi reconhecida pelo Papa Bento XIV que em 1754 proíbe a saída de obras da Biblioteca sem autorização Régia, sob pena de excomunhão e autorizando até o Rei a incluir obras proibidas pelo Index existente.

Algumas destas “obras proibidas” colocadas nas estantes do piso superior da Biblioteca, têm uma inscrição distintiva que não levantasse suspeitas a eventuais curiosos.

Há uma certa ligação com a Universidade de Coimbra, criada em 1290 por D. Dinis e a sua Biblioteca Joanina, dado que o início desta Biblioteca, em 1717, é simultâneo com o arranque da construção do Palácio Nacional de Mafra. É precisamente nesta altura que são feitas grandes aquisições de livros no estrangeiro, enviando o Rei emissários com a missão de encontrar as obras mais recentes e as melhores, adquirindo-as directamente aos editores ou recorrendo a leilões. Esses livros irão ser distribuídos por Mafra, Palácio das Necessidades e Biblioteca do Paço, destruída pelo terramoto de 1755.

Estamos em pleno Iluminismo e parece que D. João V queria concentrar aqui todo o conhecimento existente até à data.

A Casa da Livraria como também é chamada, foi iniciada com a compra das obras por D. João V, como se referiu, mas o espaço e a construção das estantes foi conduzida no tempo de D. José I. Ficaram prontas por volta de 1790 e, por isso, os livros embora catalogados estavam distribuídos por duas salas. Foram reunidos nesta sala e necessária uma nova orgânica. Foi Frei João de Santa Anna  que organizou a Biblioteca em termos que se podem considerar, ainda hoje, modernos e eficazes.

Os morcegos que durante a noite cuidam da Biblioteca, sem que se saiba por onde entram ou saem, ajudam a manter os livros, alimentando-se dos pequenos insetos que vivem do seu pó, resultante em grande parte da libertação de partículas de celulose que os constituem. É uma relação de parceria autossustentável.

Vamos descobrir Portugal e os Morcegos da Biblioteca de Mafra
Morcego, o protetor da Biblioteca

Finalmente e para ilustrar os passeios em Portugal, veja também o vídeo do Interior da Biblioteca, um belo Património que herdámos.

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Para agendar uma visita, contacte o Palácio Nacional de Mafra.


 

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ZERO – O último algarismo a ser criado

A introdução do zero no sistema decimal foi um marco determinante no desenvolvimento de um sistema numérico em que o cálculo com números muito grandes e muito pequenos se tornou possível.
Sem a noção de zero os processos de modelação no comércio, na astronomia, na física, na química, na indústria e em muitas outras actividades, teriam sido impossíveis.
Vamos percorrer, de modo simplificado, o modo como surgiu a noção de zero tal como hoje a conhecemos.

Zero

No meu anterior artigo ‘Inúmeros Números’ prometi que viria a falar sobre o algarismo zero, vou cumprir.

Mas porquê falar do zero em particular? Bem, espero que a resposta venha a ficar clara no final deste artigo. Então, vamos!

Tenho a certeza que se alguém vos perguntar quais os factos que consideram mais relevantes para a evolução da Humanidade, as respostas, após alguma reflexão, apontarão seguramente para o domínio sobre o fogo e a invenção da roda, contudo vou atrever-me a acrescentar mais um: a criação do algarismo zero!

Descoberta do Fogo
Fogo
Roda
Roda

 

 

 

 

O novo algarismo zero
O novo algarismo zero

 

Até à criação do zero a Humanidade encontrava-se condicionada no modo de representar e contar quantidades. Basta pensar por exemplo na numeração romana onde o zero não está presente.

A criação do zero pode ser atribuída a várias civilizações pois, embora em diferentes momentos da História, foram diversas as contribuições de todas elas para se atingir o conceito que hoje temos sobre o zero.

Babilónia.

Os babilónios, que viveram na Mesopotâmia, actual Iraque, utilizavam um sistema numérico posicional de base 60, sexagesimal, contudo, embora talvez tivessem sido os primeiros a chegar a uma noção de zero por volta de 2500 a.C., não dispunham de nenhum símbolo para o representar, simplesmente deixavam um espaço em branco no seu lugar.

P.S.: Um sistema numérico diz-se ’posicional’ quando o valor de cada algarismo depende da posição que ocupa, por exemplo, no número 777 o 7 da esquerda vale 700, o 7 do meio vale 70 e o 7 da direita vale 7.

Maias (América Central e América do Sul).

Por volta dos séculos IV e III a.C., os maias desenvolveram uma representação para o nada. O seu sistema de numeração era vigesimal (de base 20) e consistia numa composição de traços e pontos, apresentando duas representações para o zero (uma para compor os números e outra para ser usada na construção dos seus famosos calendários). O conceito de nada era tão relevante para os maias que lhe dedicaram uma divindade específica, o deus Zero, o deus da Morte.

Grafia dos Números Maias
Grafia dos Números Maias

Grécia.

Apesar dos avanços na geometria e na lógica, os gregos pura e simplesmente nada pensavam acerca do zero, era-lhes inconcebível considerar uma representação para o vazio. Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) considerava que a Natureza tinha horror ao vácuo. Os gregos optaram por seguir o sistema sexagesimal babilónio sem qualquer símbolo para a representação do zero. Apenas mais tarde, por volta do ano 500, surgem textos gregos que usam a letra ómicron (a primeira letra da palavra ‘oudem’ que significa ‘nada’) para representar o zero.

Roma.

Os romanos (tal como os gregos, os egípcios e os hebreus) não conheciam o zero. A numeração romana foi criada para efectuar contagens não havendo, por isso, necessidade de introduzir o zero (se não há nada para contar, não se conta). Além disso, a numeração romana não é uma numeração posicional (como, por exemplo, a numeração decimal hindu-arábica que normalmente utilizamos). Com a numeração romana é possível representar números que incluem o algarismo zero sem ser necessário que o zero exista, por exemplo, 100 representa-se por C.

China.

Os chineses também não dispunham de nenhum símbolo para o zero, quando queriam mostrar que não havia valor, deixavam um espaço em branco, opção semelhante à dos babilónios.

Índia.

Foram os hindus que criaram o sistema de numeração posicional de base 10 (com 10 algarismos diferentes) tal como hoje utilizamos, porém, quando precisavam de representar, por exemplo, o número 205, a posição do meio ficava vazia, adoptando a mesma opção dos babilónios. Foi perante este facto que resolveram criar um símbolo que representasse esse vazio ao qual chamaram ‘sunya’ que em sânscrito significa, precisamente, ‘lacuna’, ‘vazio’, ‘deserto’, ‘estéril’.

A adopção do zero como o décimo algarismo posicional está documentada desde o século VII por Brahmagupta (matemático e astrónomo indiano), embora um documento mais antigo, o Manuscrito Bakhshali, escrito por volta do século V, já incluísse o zero sob a forma de um pequeno ponto. Existem numerosos documentos indianos, a partir do século VI, em placas de cobre, que contêm o mesmo símbolo para o zero.

Manuscrito Bakhshali
Manuscrito Bakhshali

Árabes.

A maioria dos historiadores coincide em afirmar que os algarismos arábicos ou hindu-arábicos tiveram a sua origem na Índia, de facto, no árabe, este sistema de numeração que é chamado de “números indianos”, expandiu-se pelo mundo islâmico, tendo chegado ao Médio Oriente por volta de 670. Há alguma evidência que sugere que os números na sua forma actual foram desenvolvidos a partir de letras árabes nas regiões ocidentais do mundo árabe, assumindo formas distintas dos indianos e dos orientais.

Europa.

No ocidente, as primeiras menções dos actuais algarismos encontram-se no Codex Virgilianus, de 976.

A partir de 980 Gerberto de Aurillac (que viria a ser o Papa Silvestre II), fez uso do seu poder papal para difundir o conhecimento do sistema hindu-arábico na Europa. Silvestre II, que na sua juventude tinha estudado em Barcelona, teve acesso, no século XII, a traduções para o latim da obra do matemático persa al-Khwãrizmi (780 – 850), sobre os numerais indianos (Kitab al-Jabr wa-l-Muqabala), que apresentaram a notação posicional decimal para o Mundo Ocidental.

Na Europa a definição do símbolo para o zero ocorreu durante a Idade Média na sequência da aceitação dos algarismos arábicos divulgados por Leonardo Fibonacci (Pisa, c. 1170 – Pisa, c. 1250). A incorporação da representação gráfica do zero no sistema decimal hindu-arábico demorou 400 anos.
O zero evoluiu de um vácuo para um espaço em branco, para um caracter específico e, finalmente, transformou-se num símbolo numérico usado pelos hindus e pelos árabes antigos.

Ao contrário do que se poderia pensar, os nossos números actuais desenvolveram-se a partir dos símbolos usados pelos indianos embora muitas vezes o actual sistema seja apenas designado por ‘numeração árabe’.

Forma e sequência da grafia medieval dos algarismos arábicos que aparecem na página de título do Libro Intitulado Arithmetica Practica, de Juan de Yciar
Forma e sequência da grafia medieval dos algarismos arábicos que aparecem na página de título do Libro Intitulado Arithmetica Practica, de Juan de Yciar

No início dos anos 1600 deu-se nova alteração importante na representação gráfica do zero, inicialmente era pequeno e circular ‘o’, tendo evoluído para o actual formato oval ‘0’ permitindo distingui-lo quer da letra minúscula ’o’ quer da letra maiúscula ‘O’.

Nos dias de hoje o zero tem uma importância relevante ao ser largamente utilizado em programação informática e em muitas outras actividades científicas.

Apesar do algarismo zero continuar a significar nada, a realidade é que, sem ele, muito pouco na sociedade funcionaria convenientemente.

Sem dúvida a invenção do zero foi uma das maiores odisseias intelectuais da Humanidade!

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